Máscaras

Em diversas sociedades africanas vigora o princípio da ancianidade, em que os mais velhos devem ser respeitados pela sua sabedoria e experiência. Depois da morte, um ancião se torna um ancestral e frequentemente é homenageado através de rituais e celebrações em que as máscaras têm papel principal.

No momento da dança das máscaras a pessoa que a usa deixa de ser ela mesma para se tornar um veículo de comunicação com as entidades do mundo espiritual, divindades ou ancestrais.

As máscaras gueledés são utilizadas pelos membros de uma instituição tradicional dos iorubás para cultuar de forma coletiva o poder ancestral feminino. Elas são compostas por uma parte em madeira esculpida na forma de uma cabeça humana ou de animal. A essa parte de madeira, que fica na cabeça como um capacete, geralmente fixa-se um prolongamento feito com fibras vegetais, tecidos ou roupas. Elas são usadas para aplacar a ira das geniosas lyamis, que são entidades muito poderosas ligadas à fartura nos campos e à fertilidade das mulheres.

Nessa cerimônia, ao som de atabaques e cânticos, os dançarinos paramentados, adornados com joias e outros acessórios como esculturas de seios e ventre protuberantes de madeira executando movimentos femininos com o quadril, saem em procissão pelas ruas da cidade. Assim, eles abstêm-se simbolicamente de sua masculinidade para divertir, mimar e prestar homenagem às lyamis e garantir que elas não fiquem encolerizadas. Desse modo, mantêm-se a saúde, a fertilidade e a prosperidade da comunidade.

ADRIANA CRAVO

A FORÇA FEMININA

MÁSCARAS GELEDÉS

A exposição Máscaras é a tradução de uma Bahia singular, a expressão viva da Roma Negra forjada no ventre fértil da Mãe África, contida nas múltiplas identidades reforçadas pela força da fé, da esperança e da justiça de um povo matriarcal e soberano que é negra o ano todo.

O reflexo das Geledés está no cotidiano dessa cidade. É como olhar-se no espelho e ver os inúmeros rostos desconhecidos que transitam pelas ruas e singram pelas águas os contornos mais bonitos dos ancestrais.

Máscaras são expressões e representações sociais que em determinadas culturas podem ser um dispositivo para narrar a história e preservar memórias. São elos para a comunicação entre deuses e o homem. As máscaras Geledés devem, não por acaso, serem entendidas como a materialização do tempo e do espaço, divinizadas pelo sagrado ancestral, sensivelmente transcritas como herança de saberes na pós-modernidade.

As máscaras Geledés são a representação sublime do Poder Feminino. Então, como essa identidade nos representa neste tempo? Nos traços do sagrado feminino, reconhecido em rostos semelhantes de mulheres candaces que habitam o nosso presente. Na soberania e na determinação dos corpos femininos delineados pela existência, pelo movimento e pelo desejo de emancipação.

As mulheres da diáspora negra têm na sua origem o compromisso de zelar pela ordem e cosmogonia sacro africana sua presença e driblar os mecanismos da invisibilidade racial que lhes foi atribuída por séculos.

O matriarcado, representado nas energias das Geledés, expressa à autonomia e a liberdade do ser, do direito de viver bem, da garantia dos direitos. Não se pode falar das máscaras Geledés, sem antes compreender que toda a ancestralidade já foi materializada com a nossa existência.

Salvador é uma cidade soberana, mas que ainda não reflete quem somos. Seu estigma assombra e reforça uma estrutura racista cujas feridas, ainda abertas pela escravização do povo negro pela colonização europeia, são contradições de uma Bahia onde a herança escravocrata resiste e insiste em nos negar.

As máscaras Geledés exprimem o ontem, o hoje e o amanhã. Em África, as máscaras são elementos não só para deleite estético e artístico, elas são o espiritual que se ritualiza. Manifestações de forças visíveis e invisíveis que reforçam mitos e alimentam as tradições milenares. Suas formas e significados ligam a figuras de animais, nem sempre de pessoas, suas cores singulares são um aditivo da composição dos elementos naturais extraídos da sabedoria das técnicas antigas, pura tecnologia. Seja no barro, na madeira ou no ferro, as mãos intuitivas dão o tom e a forma necessária para sua composição.

Quem se máscara subverte as ideias. A interpretação não faz sentido se apenas empunhar o racionalismo como resposta ao que não se vê. E o jogo sutil da subjetividade. Não importa quantas vezes você vá ao museu e experimente olhar para uma máscara Geledés, todas as vezes, será a primeira.

NIVIA LUZ