Mobiliário
"Memórias de um tamborete: sobre minha feitura"
Sobre o uso da palhinha no mobiliário colonial, assim escreveram as professoras Joseania Miranda Freitas e Lysie dos Reis Oliveira, no texto em que dão voz a um móvel como os desta sala.
"Memórias de um tamborete: sobre minha feitura"1
"Voltando às palhinhas, são muitas as histórias que essas tramas vegetais poderiam contar, sobre como e onde foram entrelaçadas ao meu corpo de duas madeiras, mas, infelizmente, essas memórias não as possuo, pois, geralmente, este tipo de informação não é oferecida quando uma peça é adquirida pelos museus.
Os artífices que me fizeram, com suas mágicas mãos, possivelmente falavam sobre o lugar de onde as palhinhas tinham vindo, pois vieram de um lugar muito longe, que nem sequer o Atlântico passava por lá. Fica do outro lado da África, no Oceano Índico, num lugar chamado Índia, onde os portugueses aprenderam muitas técnicas e puderam observar e absorver um manancial artístico deslumbrante, que os influenciou a elaborar o famoso barroco português, segundo a estudiosa do mobiliário luso-brasileiro, Canti (1999):
Do intercâmbio entre Portugal e as Índias, surge, no panorama do mobiliário quinhentista europeu, o estilo indo-português. [...] artífices (sambladores e marceneiros) portugueses vão para Goa e Málaca, alguns lá permanecendo e outros voltando para Portugal com inovações para a decoração e a estrutura do móvel. [...] Entre as principais características dos móveis indo-portugueses assinalam-se a utilização do encaixe e de espigões de madeira (tarugo) resultando na ausência total de pregos e colas [...] (CANTI, 1999, p. 22, grifos da autora).
O uso da palhinha é resultado de um comércio triangular (Índia, Portugal e Brasil), em que intensas relações intercontinentais foram travadas para a difusão de técnicas e estilos artísticos. Foi usada em todos os estilos do período em que os portugueses mandavam nestas terras brasileiras, quero dizer, no período colonial e mesmo depois, no Brasil império, como é o meu caso, datado da segunda meta- de do século XIX. Mesmo sem exatidão quanto à data, as minhas características se aproximam dos móveis '...] de estilo Segundo Império, com influências vitorianas do 'Gotic revival' [...!', como bem marcou o Valladares (1948).
O final do século XIX e o início do século XX deram novas luzes a velhos estilos, numa perspectiva de Ecletismo. É preciso não perder de vista a recomendação de Ingold de que: 'Nenhum objeto considerado puramente em si e por si, em termos de seus atributos intrínsecos apenas, [...] Descrever uma coisa I...] é colocá-la em relação com outras coisas [...]' (2018, p. 101, grifo do autor).
I...] Falando das minhas formas, pergunto, pois já não sei mais: o que se conta sobre aquelas pessoas que produziram os meus torneados, as partes talhadas e os trancados de palhinha? Que eu fui feito na Bahia está dito, mas onde teria sido: Salvador ou no Recôncavo? Essas e outras questões são mesmo difíceis de explicar. E engraçado, os museus, não somente o que habito, pouco falam sobre as pessoas que produzem os objetos."
Fonte: Memórias de um tamborete de baiana: as muitas vozes de um objeto de museu. In Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)
Biográfica, Salvador, v. 05, n. 14, p. 541-564, maio/ago. 2020 | 549/550.Disponível em: https://revistas.uneb.br/index.php/rbpab/article/view/8106