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MENININHA DO GANTOIS Jorge Amado Eu a revejo aqui presente, o doce sorriso maternal, a mão que abençoava, reclinada no leito a comandar o axé, dona do passado e do futuro, do hoje e do amanhã. Quando jogava os búzios sobre a toalha rendada, os orixás atendiam ao seu chamado, vinham das lonjuras para com ela conversar em intimidade. Sabia da sabedoria do povo, senhora da experiência e da bondade - a Oxum da bondade, assim disse Caymmi na oração que para ela compôs -, senhora da alegria tranquila, mãe da amizade perfeita, mãe de suas filhas de sangue, as duas, Cleuza e Carmem. Mãe de tantos filhos e tantas filhas Brasil afora, aqueles cuja cabeça fez para que pudessem viver em paz e em alegria. Neta de escravos, elevou-se acima das elites pois restou fiel à sua gente, ao povo das senzalas, aos pobres e desprotegidos, aos abandonados da sorte, aos injustiçados, deles foi a Mãe mais dedicada, a que jamais faltou. Não desejou nem possuiu os bens do mundo, desdenhou a fortuna dos valores materiais, sua riqueza era outra, era atender aos que sofriam, resolver pendências, ajudar o amor a nascer e a renascer, juntar os namorados, dar água para matar a sede e pão para matar a fome de justiça dos desesperados, distribuir ternura, apaziguar e harmonizar. Harmonia exemplar de sua vida, da longa trajetória, presença de mãe, Mãe Menininha do Gantois. Venho te rever, amiga minha, dos tempos da adolescência aos dias da velhice, a mais doce das criaturas, a mais nobre das senhoras, a mais bela das Oxuns, a mãe da bondade, Menininha do Gantois. Aqui venho te rever, aqui, em tua casa, teu Pegí, teu reino, teu axé. Aqui contínuas a zelar pelos orixás e pelo povo da Bahia, mãe, Mãe Menininha do Gantois, aqui resplandece tua memória imortal. Deus "Deus? Eu não sei se todos pensam como eu, mas Ele é o supremo. Além Dele, ninguém. Respeito muito e tenho muita fé, o mesmo Deus da Igreja é o mesmo Deus do Candomblé, vou dizer uma coisa ao senhor que não digo a ninguém, a África conhece o nosso Deus tanto quanto nós o conhecemos, com nome diferente, mas é o mesmo Deus, com o nome de OLORUM, a morada Dele é lá em cima, a nossa aqui embaixo." Nome "Não sei quem pôs em mim o nome de Menininha. Sei que desde que me entendo, minha avó, minha tia, minha mãe, todos me chamam de Menininha. Desde criança. Aliás, minha infância, não tenho muito o que contar dela, não. Eu brincava muito como toda a criança. Agora, dançava o Candomblé com todos desde os seis anos"

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